Neymar Jr. foi convocado mais uma vez para a Copa do Mundo. Para muitos torcedores, a notícia trouxe satisfação, alimentada pela esperança de que algum lampejo de sua antiga habilidade se manifeste no torneio, ou pela crença de que ele possa atuar como uma figura veterana para elevar o ânimo do time. Outros, no entanto, receberam a decisão com profunda insatisfação. Para estes, trata-se de um desperdício de vaga, visto que há nomes mais aptos e disponíveis atualmente para a posição, capazes de oferecer uma contribuição concreta em campo. De qualquer forma, satisfeitos ou não, a convocação de Neymar nos obriga a refletir sobre o verdadeiro significado do futebol contemporâneo. O que representa a convocação do Neymar para o futebol brasileiro?
Para compreender esse cenário, basta analisarmos o comportamento do treinador da seleção. Se observarmos as recentes escalações feitas antes do torneio, o nome de Neymar sequer aparecia, deixando tacitamente claro que sua presença não era uma prioridade técnica. Então, por que, de última hora, seu nome surge na lista oficial? A resposta começa a se desenhar nas próprias justificativas do técnico Ancelotti após a convocação, que evidenciam uma contribuição esportiva de Neymar, no mínimo, incerta:
Escolhemos o Neymar não porque pensamos que vai ser um bom reserva, mas porque pode agregar com suas qualidades à equipe. Que jogue um minuto, cinco minutos, que não jogue, que jogue 90 minutos (...). Creio que temos que focar na qualidade dos minutos (...). Quero ser claro, honesto e limpo: ele vai jogar se merecer jogar. O treino vai decidir isso. Acho importante não fixar toda a expectativa em cima de um só jogador (Globo Esporte, 2026).
É notável a falta de fundamentação concreta. Irônica e contraditoriamente, o discurso tenta justificar a presença de um jogador preparando a todos para o fato de que ele, muito possivelmente, ficará no banco de reservas. Ao afirmar que “ele vai jogar se merecer jogar” e que "o treino vai decidir isso", a “transparência” e “honestidade” de Ancelotti serve apenas para mascarar um incômodo evidente: ele foi impelido a convocar alguém cuja ausência em campo ele mesmo já começa a justificar.
O indício definitivo para desvendar esse mistério pode ser visto fora do campo. Meia hora após o anúncio da convocação, Neymar publicou três vídeos publicitários celebrando sua ida à Copa, o que o fez faturar 30 milhões de reais. Essa situação evidencia a essência do futebol contemporâneo: a inclusão de figuras de renome, como Neymar, serve para potencializar o envolvimento geral e, por efeito direto, elevar as quantias que as empresas se dispõem a investir em publicidade. O que conflui com os interesses da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), uma vez que este atleta pode gerar mais lucros. A suposta igualdade e o mérito esportivo são mais uma ilusão do que uma realidade. Para os burocratas e empresários que orbitam o esporte, o futebol não é um fim em si mesmo, mas apenas um meio de adquirir dinheiro, fama e riqueza.
Portanto, a presença de Neymar não se explica por seu desempenho recente, por suas habilidades ou por um suposto papel de líder veterano – especialmente considerando seu histórico de atritos que, em vez de motivar, geram tensões internas. A convocação ocorre exclusivamente porque seu nome ainda é um produto lucrativo. O treinador torna-se apenas um porta-voz constrangido, tentando conciliar a suposta “racionalidade técnica” com as artimanhas e interesses dos "verdadeiros donos da bola, ou seja, os empresários do futebol" (Viana, 2010, p. 6). O futebol perdeu seu sentido original devido à sua crescente mercantilização e burocratização, transformando-se em apenas mais um produto de uma sociedade competitiva e mercantilizada.
Dessa forma, como podemos notar que este problema é mais amplo, esgotar nossa análise apenas no caso de Neymar seria um erro, pois acabaria por reforçar a atual tendência de hipervalorização individual que remove o caráter coletivo do futebol. O fenômeno observado com o atacante Neymar não é isolado; ao contrário, manifesta-se rotineiramente na modalidade e afetou, em diferentes níveis, todos os atletas convocados para o mundial. A trajetória de Neymar serve como um exemplo emblemático que evidencia, sem deixar margem para dúvidas, a influência predominante do capital e do controle burocrático. Esse processo se inicia já na base, através de uma competitividade feroz que resulta em lesões precoces antes mesmo do pleno desenvolvimento técnico dos jovens, e persiste na luta por permanência em grandes agremiações, onde seguem subjugados aos empresários do futebol, a competição e ao controle burocrático dos clubes.
O dinheiro e o poder das organizações burocráticas e empresas ditam as regras, tornando o futebol cada vez mais falso, ilusório e transformando o entretenimento em alienação. Para que o esporte deixe de ser um fetiche, é preciso ir mais longe. A superação dos interesses mercantis através de uma transformação social radical e total é a única via para que o futebol recupere seu potencial emancipador. Enquanto essa transformação não se concretiza, o alento autêntico não será encontrado no espetáculo da Copa do Mundo, mas na superação das práticas de lazer alienado. É nesse espaço, distante da rigidez burocrática e da lógica da competição capitalista, que o prazer de jogar e o de assistir se reencontram, fortalecendo a solidariedade e a criatividade.
Referências
GLOBO ESPORTE. Ancelotti explica convocação de Neymar para a Copa do Mundo. Globo Esporte, 18 maio 2026. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2026/05/18/ancelotti-explica-convocacao-de-neymar-para-a-copa-do-mundo.ghtml. Acesso em: 21 maio 2026.
VIANA, Nildo. Notas sobre o significado político do futebol. Revista Espaço Acadêmico, ano X, n. 111, ago. 2010.
WIK, Eirik Halvorsen. Growth, maturation and injuries in high-level youth football (soccer): a mini review. Frontiers in Sports and Active Living, v. 4, 2022. DOI: 10.3389/fspor.2022.975900. Disponível em: Frontiers in Sports and Active Living. Acesso em: 21 maio 2026.
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