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O Antidogmatismo como Dogma

Vivemos no tempo da falsa autonomia intelectual. Isso se manifesta de diversas formas, seja em pesquisas superficiais, no dogmatismo ou, de forma menos perceptível, através de uma forma específica de falso antidogmatismo. O antidogmatismo, em sua essência e na grande maioria das vezes, é algo positivo e necessário para o avanço do pensamento crítico. O que abordaremos aqui, no entanto, é um tipo muito específico de antidogmatismo: o oportunista e desonesto. Trata-se do uso do termo “antidogmatismo” discursivamente, não para contribuir com o avanço da compreensão do mundo, mas como um subterfúgio para justificar ecletismo, bem como desqualificar autores sem precisar refletir sobre seu conteúdo. Em fóruns, universidades e debates, surgem os "guardiões do pensamento livre", cujo maior pesadelo não é estar errado, mas ousar concordar com algum autor ou seguir uma linha teórica. Em vez de estimular a liberdade de pensamento, eles impõem limites sobre o que ela deve ser. Ironicamen...

O Antidogmatismo como Dogma

Vivemos no tempo da falsa autonomia intelectual. Isso se manifesta de diversas formas, seja em pesquisas superficiais, no dogmatismo ou, de forma menos perceptível, através de uma forma específica de falso antidogmatismo. O antidogmatismo, em sua essência e na grande maioria das vezes, é algo positivo e necessário para o avanço do pensamento crítico. O que abordaremos aqui, no entanto, é um tipo muito específico de antidogmatismo: o oportunista e desonesto. Trata-se do uso do termo “antidogmatismo” discursivamente, não para contribuir com o avanço da compreensão do mundo, mas como um subterfúgio para justificar ecletismo, bem como desqualificar autores sem precisar refletir sobre seu conteúdo.

Em fóruns, universidades e debates, surgem os "guardiões do pensamento livre", cujo maior pesadelo não é estar errado, mas ousar concordar com algum autor ou seguir uma linha teórica. Em vez de estimular a liberdade de pensamento, eles impõem limites sobre o que ela deve ser. Ironicamente, o antidogmatismo, nesse caso, torna-se um dogma. E, como dogma, nega o antidogmatismo e se torna outro fenômeno, um falso antidogmatismo. Sob a justificativa de combater o dogmatismo, o que vemos é um policiamento das referências. Ai daquele que, ao concordar com um autor, não misture meia dúzia de outros autores para fingir originalidade e autonomia intelectual. Para essa patrulha, a coerência teórica sempre é um defeito, um sintoma de dogmatismo.

A premissa desse compassivo, benévolo e clemente tribunal inquisitório é fascinante em sua mediocridade intelectual. Incapazes de debater o conteúdo do pensamento de um ou outro autor, bem como de alguma linha teórica específica, eles rapidamente se refugiam para a auditoria das citações e referências. A discussão sobre o conteúdo passa a não existir e dá lugar a acusações de ventriloquismo: "Você citou aquele autor!", "Onde estão as citações dos outros autores?". Eles não leem para compreender o mundo e refletir sobre o mesmo; leem com a lupa na mão, desesperados para flagrar um "crime" de citação e, assim, se eximirem do exaustivo trabalho de pensar.

O resultado dessa fobia a certos autores é a consagração do vazio. Na tentativa desesperada de provar que não são "seguidores" de ninguém, os novos dogmáticos de um falso antidogmatismo constroem colchas de retalhos conceituais que agradam todo mundo, mas que também não explicam absolutamente nada. Fundem definições, ignoram as múltiplas determinações de um fenômeno e colocam num liquidificador ideológico os conceitos até que tudo vire uma geleia de ideias agradáveis, porém incoerentes. O falso antidogmatismo, neste caso, é a justificativa do ecletismo.

No entanto, o antidogmatismo como dogma oculta algo ainda mais profundo. Nas entranhas desse “antidogmatismo dogmático”, oportunista e desonesto, estão interesses de classe. Estão posicionamentos no interior da luta cultural. Esse falso zelo crítico mascara, muitas vezes, o interesse de defender o ecletismo e combater o pensamento revolucionário. Por exemplo, quando alguém cita um autor ou uma teoria consolidada para explicar um fenômeno, esses "antidogmáticos dogmáticos" atacam essa produção cultural, tachando-a de dogmática pura e simplesmente por referenciar tal base teórica. Ao agirem assim, desqualificam o autor e evitam o esforço de reflexão, facilitando o combate de certas ideias. Em seguida, logo após esse combate, apresentam o ecletismo baseado em uma mistura aleatória de autores, como se essa fosse a abordagem mais legítima, simplesmente pelo fato de citar mais autores.

Além disso, imersos na competição inerente à sociedade capitalista, utilizam essa pseudocrítica como forma de concorrer contra alguém. Desqualificar um autor contemporâneo que possui certo reconhecimento torna-se uma forma de competir com ele dentro de uma mesma esfera social. Uma vez que se reprime e se condena a citação de um autor, abre-se espaço no "mercado de ideias" para que outros sejam citados, inclusive, e de preferência, aquele que formulou a pseudocrítica.

Que fique claro: a erudição é sempre bem-vinda, e o domínio da discussão a ser debatida também o é. Não estamos, de forma alguma, defendendo o vazio intelectual, a preguiça ou a leitura realmente dogmática que apenas repete cartilhas. O que defendemos é que apenas porque citamos um autor, isso não quer dizer, automaticamente, que não fizemos todo um rigoroso trabalho prévio de reflexão e crítica. A coerência teórica não anula a nossa autonomia intelectual; pelo contrário, é a prova de que analisamos a realidade com a seriedade necessária para não brincarmos de inventar pseudoconceitos ou misturarmos autores discordantes apenas a fim de justificar e legitimar as próprias produções intelectuais e agradar a todos.


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