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O Antidogmatismo como Dogma

Vivemos no tempo da falsa autonomia intelectual. Isso se manifesta de diversas formas, seja em pesquisas superficiais, no dogmatismo ou, de forma menos perceptível, através de uma forma específica de falso antidogmatismo. O antidogmatismo, em sua essência e na grande maioria das vezes, é algo positivo e necessário para o avanço do pensamento crítico. O que abordaremos aqui, no entanto, é um tipo muito específico de antidogmatismo: o oportunista e desonesto. Trata-se do uso do termo “antidogmatismo” discursivamente, não para contribuir com o avanço da compreensão do mundo, mas como um subterfúgio para justificar ecletismo, bem como desqualificar autores sem precisar refletir sobre seu conteúdo. Em fóruns, universidades e debates, surgem os "guardiões do pensamento livre", cujo maior pesadelo não é estar errado, mas ousar concordar com algum autor ou seguir uma linha teórica. Em vez de estimular a liberdade de pensamento, eles impõem limites sobre o que ela deve ser. Ironicamen...

Anti-Factos: uma breve resposta a João Bernardo e sua defesa dos “factos”

Desde sua fundação, inaugurada por Marx por meio de uma revolução epistêmica, o marxismo tem enfrentado diversos adversários que correspondem aos interesses de diferentes classes sociais. Um desses combatentes é o pseudomarxismo: um conjunto de ideias que, embora expresse interesses alheios ao movimento revolucionário do proletariado, reivindica no discurso a característica de serem ideias revolucionárias — e, portanto, marxistas.

O pseudomarxismo tem sua base social nos estratos mais baixos da intelectualidade e da burocracia. Embora façam parte das classes superiores e não tenham interesse real em superar o capitalismo, esses indivíduos sentem-se insatisfeitos com sua posição social. Como não conseguem promover mudanças sozinhos, recorrem ao discurso marxista como estratégia para mobilizar o proletariado em prol de seus próprios interesses. Exemplos concretos dessa dinâmica podem ser observados nas ações do partido bolchevique durante o processo de contrarrevolução de 1917 (para um aprofundamento, recomendamos a leitura de “Os Bolcheviques e o Controle Operário” de Maurice Brinton).

Embora o conceito de pseudomarxismo possa surpreender — especialmente aqueles que defendem uma definição pluralista de “marxismos” —, ele não é um fenômeno novo. O próprio Marx chegou a afirmar que não era marxista, reagindo às distorções de suas ideias promovidas pela nascente classe burocrática de sua época. Atualmente, diversas variações do pseudomarxismo persistem. O leninismo destaca-se como o pseudomarxismo hegemônico, mas existem outros exemplos, como o pseudomarxismo acadêmico, o lukacsiano e o ecológico, entre outros.

Resta saber, contudo, se o marxismo autêntico é responsável pelo pseudomarxismo. Na sociedade contemporânea, observamos que este último funciona como o principal combustível para o antimarxismo, já que suas limitações e sua autoidentificação com o marxismo real facilitam críticas indevidas. Por isso, torna-se fundamental resgatar o marxismo autêntico, confrontando as ideias que se autointitulam marxistas, mas que não correspondem, na prática e na teoria, à sua essência.

Vale ressaltar que esse resgate e a crítica ao pseudomarxismo não buscam a defesa de um marxismo "puro" ou dogmático. O objetivo é recuperar um modo de pensar autenticamente proletário-revolucionário, capaz de acelerar a criação das condições sociais necessárias para que o proletariado avance e concretize seus interesses históricos. Por isso, a crítica ao pseudomarxismo exige um cuidado duplo: evitar a defesa de um marxismo dogmático e, simultaneamente, preservar sua essência autêntica (para uma discussão detalhada, veja o artigo O Marxismo Antidogmático de Karl Korsch).

Lênin, por exemplo, simplifica o marxismo ao defini-lo como uma mescla de três elementos: economia política inglesa, filosofia alemã e socialismo francês. Essa definição, porém, não consegue expressar o fato de que o marxismo é um desdobramento do surgimento do proletariado, sendo a expressão teórica do movimento revolucionário dessa classe específica, como diria Korsch. Se alguém critica o marxismo baseando-se nessa definição de Lênin — argumentando que ele seria um conjunto de ideias ainda atrelado à sociedade capitalista e, portanto, incapaz de expressar o proletariado revolucionário —, essa crítica seria dirigida ao marxismo ou à deformação feita por Lênin? Obviamente, não podemos julgar o marxismo a partir de uma percepção distorcida do mesmo.

Outro exemplo é o conflito entre os pseudomarxistas do “Oriente” e os físicos do “Ocidente” durante o surgimento da física quântica. Paul Mattick, ao analisar esse embate, observou que o que alimenta o antimarxismo ocidental não são as ideias de Marx, mas o “marxismo” enquanto ideologia do movimento operário europeu e dos autodeclarados estados “socialistas” do bloco oriental (a discussão completa de Paul Mattick sobre o tema pode ser conferida em Marxismo e a Nova Física).

A necessidade de diferenciar o marxismo autêntico — enquanto expressão teórica do movimento revolucionário proletário — das diversas formas de pseudomarxismo que expressam interesses alheios à esta classe torna-se evidente ao analisarmos embates teóricos concretos. Um exemplo emblemático disso ocorreu em 26/04/2024, quando publiquei um comentário no portal Passa Palavra (disponível aqui) em resposta a um artigo de João Bernardo. Nele, busquei confrontar sua caracterização do marxismo e, ao mesmo tempo, explicitar a defesa que ele realiza de certos aspectos do positivismo. A minha intervenção foi:

O método comparativo sob a forma das variações concomitantes foi defendido por Durkheim em seu livro “As Regras do Método Sociológico”. Este método é, por sua vez, a adequação do método de investigação das relações sociais ao método das ciências naturais que é a da experimentação direta (por isso, o método comparativo seria chamado por Durkheim também de “método da experimentação indireta”). Hoje em dia já não me surpreendo com João Bernardo defendendo este método positivista que foi criticado até mesmo pela limitada consciência burguesa, mas continuo, infelizmente, me surpreendendo com o seu contínuo combate ao marxismo ao atacar os supostos “marxistas”. Os supostos “marxistas” representados por João Bernardo possuem a grande especificidade de não utilizarem o método dialético ou o materialismo histórico, mas, ainda assim, como mágica – ou, melhor, como fantasia provida da imaginação -, continuam sendo marxistas.

Fiz este comentário com o intuito de, além de questionar a defesa acrítica de aspectos do positivismo, explicitar que o que João Bernardo denomina como “marxistas” não o são, de fato. Ao meu ver, Bernardo combate o marxismo atacando espantalhos, pois discorre longamente sobre método dialético e materialismo histórico sem fundamentação real em escritos ou condutas de marxistas autênticos. Ao confundir o pseudomarxismo com a essência do pensamento de Marx, ele insiste em atacar uma caricatura, abdicando da diferenciação necessária e honesta que se esperaria de sua erudição. Um exemplo nítido dessa postura imprudente é a resposta que ele deu à minha intervenção, na qual afirma:

Não falta entre os marxistas quem prefira deduzir os factos a partir do método, a tal ponto que os factos se apresentam como simples ilustrações do método. Temos então divagações, mais perto da teologia do que da historiografia. Este tipo de lucubrações recorre à dialéctica, um método lógico que possui no misticismo um curioso pedigree. O misticismo pretende estabelecer uma relação íntima e directa do indivíduo com a divindade, prescindindo dos intermediadores oficiais, que são os sacerdotes. E assim, sem colocar uma categoria social acima das restantes, o misticismo constituiu um terreno fértil para as heresias, já que cabia ao clero, e só a ele, a definição da ortodoxia. [...] A dialéctica só deixa de ser mística quando esbarra com os factos. Se a vetusta expressão materialismo dialéctico conserva algum sentido hoje, numa época em que a concepção de matéria tanto se alterou que acabou por se desmaterializar, é no choque com os factos. Foi esta a operação a que Marx se referiu quando disse que havia virado ao contrário a dialéctica de Hegel. Pretender colocar em primeiro plano a dialéctica, como se os factos se deduzissem dela, e julgar que a dialéctica superou o empírico, é regressar à teologia, e do modo mais absurdo, uma espécie de teologia laica. É o empirismo que transforma a dialéctica, de um infindável exercício teológico de desdobramentos contraditórios, num instrumento lógico, quero dizer, numa lógica que pode ser usada como instrumento na história comparada e na análise macroeconómica comparativa. As contradições internas, em vez de serem o mecanismo do ilimitado desdobramento das séries místicas, passam a ser o instrumento com que definimos os factos por oposição a outros factos e pelas suas rupturas internas, que permitem a passagem do estático ao dinâmico. E assim a superação do enunciado de factos pelo estabelecimento de campos, que há pouco defini como a base fundamental da história comparada, tal como eu a entendo e pratico, tem por instrumento essa dialéctica que Marx virou do avesso. Se eu sou marxista? Sim, sou. Marxista deste marxismo.

Nessa resposta, encontram-se não apenas as acusações de Bernardo ao que ele rotula como “marxistas”, mas também a exposição da sua própria concepção sobre o método dialético e a análise da realidade. Assim, para respondê-lo, vamos seguir este caminho: a) o concreto como ponto de partida; b) crítica ao “empirismo” Bernardino


A) O concreto como ponto de partida


João Bernardo critica o que chama de “marxistas”, afirmando que muitos deles “preferem deduzir os fatos a partir do método”, tratando os dados apenas como ilustrações de suas teorias. Essa crítica revela, contudo, uma imprecisão conceitual: afinal, quem são esses supostos marxistas que ignoram o próprio método de Marx e, ainda assim, continuam sendo rotulados como marxistas?

Para Marx, o caminho do processo de análise é oposto ao que sugere Bernardo. Marx defende que é “mais correto começar pelo que há de concreto e real nos dados”. Para compreender esse conceito, devemos notar que o “concreto”, para Marx, não é um fato isolado (“factos”), mas uma “síntese de muitas determinações”, ou seja, a unidade de diversos elementos.

Dessa forma, o concreto é, simultaneamente, o ponto de partida e o objetivo final da análise: O ponto de partida é o “concreto aparente” — a realidade tal como a percebemos inicialmente. O processo de investigação consiste em descobrir as múltiplas determinações que compõem esse concreto. O resultado final é o “concreto-pensado” — a realidade agora compreendida e reconstruída em nosso pensamento (para compreender melhor todos os procedimentos analíticos do método dialético e não apenas seu ponto de partida, ver A Dialética Revolucionária de Nildo Viana).

O Capital ilustra perfeitamente esse procedimento analítico: Marx parte da mercadoria para, sucessivamente, revelar as determinações que permitem a reconstrução do concreto (que neste caso é o modo de produção capitalista, seu foco analítico no Capital). A partir da análise da mercadoria, ele articula conceitos como trabalho útil, trabalho abstrato, tempo de trabalho socialmente necessário, valor da força de trabalho, mais-valor, capital e acumulação de capital, demonstrando como a totalidade se reconstrói a partir de suas partes constitutivas.

Quem se autointitula marxista enquanto incorre nas mesmas falhas que Bernardo aponta, demonstra, no mínimo, desconhecer o método de Marx. Mas devemos crer que a mera autoproclamação é suficiente para conferir o título de marxista? Ora, bastaria eu declarar que posso voar para que a gravidade se tornasse nula? A realidade — seja ela física ou teórica — não se dobra ao desejo de quem apenas se intitula o que, na prática, não é. Curiosamente, o método de Bernardo — tão obcecado pela suposta solidez dos 'factos' e da comparação — revela-se incapaz de realizar a mais elementar das distinções: a diferença abismal entre o marxismo autêntico e a sua caricatura pseudomarxista. É irônico, para dizer o mínimo, que um investigador tão apegado aos “factos” fracasse justamente na análise da realidade teórica, confundindo fenômenos distintos sob uma mesma e imprecisa alcunha.


B) Crítica ao “empirismo” Bernardiano


Bernardo sustenta que a “dialéctica só deixa de ser mística quando esbarra com os factos”, uma suposta ruptura que ele atribui a Marx ao "virar ao contrário" a dialéctica de Hegel. Na defesa ferrenha de seu “empirismo”, ele chega a classificar a ideia de que a dialética, se superar o empírico, seria um retorno à “teologia, e do modo mais absurdo, uma espécie de teologia laica”. Não nos alongaremos aqui em corrigir a confusão elementar que Bernardo faz ao igualar o conceito marxista de “concreto” aos seus simplórios “factos”.

O ponto é que essa tal “teologia laica”, que ele tanto chama de “marxismo”, tem nome — chama-se ciência. É precisamente a ciência que, ao abandonar a apreensão do concreto, elege o fetichismo dos dados como seu dogma inabalável. Veja-se a física quântica: ao colapsar diante da ideia de que a “matéria se desmaterializou”, essa disciplina fetichiza tanto seus “factos” e “dados” que desiste de qualquer projeto de explicação da realidade, refugiando-se em meras descrições estatísticas e indeterministas. É curioso — para não dizer trágico — ver Bernardo empunhando a bandeira dos “factos” e do “empírico”, alinhando-se, sem perceber, aos limitados cientistas como Bohr, Heisenberg ou mesmo Durkheim (na verdade, defendemos que Bernardo tem uma maior influência do estruturalismo. Fizemos uma análise de seu pensamento aqui)

Por isso, a crítica de Lukács às ciências naturais se encaixa muito bem se aplicada à João Bernardo.

Com efeito, os fatos “puros” das ciências naturais surgem da seguinte maneira: um fenômeno da vida é transportado, realmente ou em pensamento, para um contexto que permite estudar as leis às quais ele obedece sem a intervenção perturbadora de outros fenômenos. Esse processo é reforçado pelo fato de que os fenômenos são reduzidos à sua pura essência quantitativa, à sua expressão em número e em relações de número. [...] O caráter fetichista da forma econômica, a reificação de todas as relações humanas, a extensão sempre crescente de uma divisão do trabalho, que atomiza abstratamente e racionalmente o processo de produção, sem se preocupar com as possibilidades e capacidades humanas dos produtores imediatos, transformam os fenômenos da sociedade e, com eles, sua apercepção. Surgem fatos “isolados”, conjunto de fatos isolados, setores particulares com leis próprias (teoria econômica, direito etc.) que, em sua aparência imediata, mostram-se largamente elaborados para esse estudo científico. Sendo assim, pode parecer particularmente “científico” levar até o fim e elevar ao nível de uma ciência essa tendência inerente aos próprios fatos. Por outro lado, em oposição a esses fatos e sistemas parciais isolados e isolantes, a dialética, além de insistir na unidade concreta do todo e desmascarar essa ilusão enquanto ilusão, produzida necessariamente pelo capitalismo, atua como simples construção.

Bernardo ataca os supostos “marxistas” para, sob esse pretexto, pavimentar a defesa de seu empirismo — uma posição que flerta perigosamente com a estreiteza das ciências naturais. Em vez de gastar energia combatendo espantalhos, seria intelectualmente mais honesto que Bernardo assumisse sua inclinação real: a ciência, e não o método de Marx. É, no mínimo, irônico que, ao se autodeclarar “marxista” após ter reduzido a dialética a um mero choque com os fatos, ele apenas inaugure seu próprio pseudomarxismo — ou, se preferirmos, seu “marxismo bernardiano” —, transformando o título de marxista em uma fantasia que convive, tranquilamente, com a fé cega nos “factos” e na comparação.


Comentários

  1. O texto realiza uma façanha teórica rara: denuncia que João Bernardo chama qualquer coisa de marxismo e, em seguida, cria uma alfândega ideológica na qual o autor decide quem entra, quem sai e quem será deportado para o território do “pseudomarxismo”.

    O critério parece simples: marxista autêntico é quem concorda com o autor; quem discorda recebe imediatamente um carimbo de falsificação. Lênin? Pseudomarxista. Lukács? Às vezes serve como testemunha de acusação. João Bernardo? Pseudomarxista bernardiano. Daqui a pouco Marx será advertido por não ter citado corretamente o "marxismo autêntico".

    A passagem sobre a física quântica é especialmente admirável. Bohr e Heisenberg passaram décadas discutindo problemas epistemológicos complexos sem perceber que tudo poderia ser resolvido com uma bronca sobre “fetichismo dos dados”. Felizmente, o texto chegou para comunicar aos físicos que a ciência “desistiu de explicar a realidade”. É possível que o CERN suspenda suas atividades após essa descoberta.

    Também chama atenção a crítica aos espantalhos. O texto acusa João Bernardo de fabricar espantalhos e responde construindo uma plantação inteira deles: “os cientistas”, “o empirismo”, “a física quântica”, “os pseudomarxistas”, todos alinhados numa grande conspiração contra o marxismo autêntico, cuja autenticidade, por feliz coincidência, é certificada pelo próprio autor.

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    1. Olá, Anônimo. Primeiramente, muito obrigado pela leitura e pelo comentário.
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      No meu texto, deixo claro que não sou eu quem decide quem é ou não marxista. O critério adotado, a todo momento, é a coerência com o proletariado revolucionário. Além disso, aponto que soa, no mínimo, estranho alguém ser chamado de marxista utilizando um método totalmente incompatível com a dialética, como quer Bernardo.
      ​
      A grande questão, no fim das contas, é a necessidade de termos um critério bem definido para o que é o marxismo (separando-o daquilo que foge à sua base), sem que para isso caiamos no dogmatismo. Bernardo, infelizmente, parece não ter parâmetro algum para essa definição, tratando a mera autointitulação como suficiente.

      ​Sobre a física quântica, embora existam muitos debates sobre sua metodologia, a estatística tornou-se o grande critério de realidade. Contudo, a estatística não explica o porquê dos fenômenos, apenas a sua regularidade. O próprio Bohr sustentava uma visão indeterminista, defendendo que os físicos não deveriam afirmar nada sobre a realidade subjacente aos experimentos.
      ​Nesse ponto, acredito que você tenha confundido experimentação com explicação — e são dois momentos diferentes. O CERN não explica a realidade; ele coleta informações que, posteriormente, precisam ser analisadas por meio de um método. A física quântica, apesar de todo o seu sucesso experimental, ainda não oferece uma explicação total da natureza microcósmica.
      ​Um abraço e obrigado novamente por comentar!

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    2. PS.: quando digo sobre o critério definidor do marxismo, cito Karl Korsch. Então, esse critério não é nem mesmo uma ideia original minha. Portanto, meu texto realmente deixa claro isso, sem margens para outra interpretação. Recomendo a leitura de "marxismo e filosofia".

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  2. Não é você que decide o que é marxista, é o Nildo né? Que a Igreja me dê sua benção sagrada, são Marx rogai pela minha alma!

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  3. A segunda parte do texto (que é a mais importante) está ainda rasa. A ideia de contrapor o método científico ao método marxista é no mínimo curiosa e seria tomada como ofensa por 99% dos marxistas, pseudos ou não.

    O que distingue a perspectiva de Marx é simplesmente a aceitação da possibilidade de que a realidade seja contraditória, de modo que seria impossível construir um sistema coerente a partir da massa dos fatos sociais e econômicos. Não há conflito com o empirismo ou com o positivismo a não ser quando estes insistem na necessidade do sistema e da não-contradição de maneira dogmática.

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    1. Antes de tudo, obrigado pelo comentário!

      Você percebeu corretamente que essa segunda parte não foi desenvolvida com maior profundidade. Isso foi intencional, pois meu objetivo era responder a uma questão específica, sem me alongar além do necessário. Procurei apenas evidenciar a necessidade de distinguir o marxismo do pseudomarxismo. Superada essa discussão inicial, aí sim considero importante aprofundar o tema que você levantou.

      Quanto ao debate sobre o método dialético em comparação com outros métodos, como o positivista, trata-se de uma discussão antiga e amplamente debatida, que conta com uma vasta bibliografia. Na minha perspectiva, algumas das críticas mais consistentes à ideia de que o método de Marx se aproxima dos métodos científicos podem ser encontradas em Marxismo e Filosofia, de Karl Korsch; História e Consciência de Classe, de György Lukács; e, mais recentemente, em A Dialética Revolucionária, de Nildo Viana. Há também As Aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen, de Michael Löwy, uma obra bastante conhecida e frequentemente elogiada. Embora contenha reflexões interessantes, considero que ela apresenta alguns problemas conceituais.

      O ponto em comum entre essas obras é a defesa de que o marxismo se diferencia radicalmente da ciência, compreendendo esta última como um produto histórico da divisão capitalista do trabalho. No entanto, como você bem observou, essa continua sendo uma questão controversa. Paul Mattick, por exemplo, embora tenha sido leitor de Karl Korsch e um importante representante do marxismo autêntico, acaba assumindo uma concepção acrítica da ciência. Em seus escritos, chega a sustentar que as ciências naturais são capazes de expressar teoricamente a natureza, tornando desnecessária uma abordagem especificamente marxista sobre ela.

      Nesse sentido, penso que ainda permanece em aberto a tarefa de elaborar uma crítica marxista das ciências naturais que seja mais concreta e menos abstrata. Esse talvez seja um dos desafios teóricos mais relevantes para aprofundar a compreensão da própria natureza a partir da perspectiva marxista.

      Agora, quanto a esses supostos "princípios", como a ideia de que a perspectiva de Marx consistiria na aceitação de que a realidade é contraditória, penso que há um equívoco. Marx nunca formulou sua concepção nesses termos. Essa interpretação aproxima-se muito mais das formulações posteriores de Engels e, sobretudo, de Lênin e Stalin.

      A perspectiva de Marx é bem mais rica e complexa. Em vez de partir de princípios gerais sobre a realidade, ele procura apreender o concreto como síntese de múltiplas determinações. Cabe ao investigador reconstruir esse concreto no pensamento por meio do processo de abstração, identificando a determinação fundamental que constitui o fenômeno investigado.

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